Solace
Existe alguma ambiguidade na definição portuguesa do vocábulo solace. O termo aplica-se como sinónimo de consolação, mas também pode significar alívio. Parece-me que a consolação não estará obrigatoriamente implícita no alívio, mas que este poderá realmente ser uma consequência de um gesto ou momento de consolação.
Solace é uma palavra inglesa que me agrada, por si só, parece-me suficiente para definir a tensão e as indefinições dos trabalhos expostos, reflectindo e potenciando essa ambiguidade suspensa e as tentativas de mapear a ideia de consolação ou refrigério. O ponto de partida para este projecto foi o fascínio que alguns pintores do Renascimento italiano exercem sobre mim, em particular Antonello da Messina (1430 -1479), pintor siciliano cujas obras eram por vezes confundidas com as de artistas flamengos, devido ao detalhe e rigor, à delicadeza e à profundidade da cor e à harmonia compositiva das cenas representadas. Solace conta aqui estórias, ou exercícios narrativos - onde se confunde o real com o imaginário e as situações do quotidiano com realidades ficcionadas - que se impregnam de códigos e símbolos pessoais, permeáveis a várias influências e citações mais ou menos directas e óbvias. É uma exposição de desenhos, bidimensionais e tridimensionais e, pelo potencial narrativo das imagens, posso assumir que se trata afinal de uma exposição de Ilustração. Interessa-me aqui, em particular, o transcender dos limites da Ilustração como exercício comercial, que é geralmente definida por abordagens formais - sempre próximas do Desenho -, que promovem o dogma da imagem publicada e da expressão visual de um texto, apenas como um apêndice para a sua compreensão. Trabalhei pois a Ilustração como exercício auto-narrativo, mais próxima do picture-book, do livro de esquissos ou, simplesmente, como um processo gerador imagens a partir de um universo íntimo, que se transporta para o papel essencialmente através de metáforas visuais.

window photo by Adriana OLiveira